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Qual o valor de Colesterol ideal?

Precisaremos nós de regressar às nossas origens?

Prof. Doutor Lino Gonçalves

Cardiologista

Lino Gonçalves

 

A causa mais frequente de morte no homem, em Países desenvolvidos, ou em vias de desenvolvimento, é a aterosclerose. A aterosclerose é uma doença crónica progressiva das artérias de grande dimensão (incluindo as artérias coronárias), que se caracteriza por um processo inflamatório crónico destas artérias e que surge em consequência, principalmente da elevação do colesterol no sangue, mas também de fenómenos genéticos, imunológicos, hipertensão arterial, diabetes, tabagismo, obesidade, inflamações crónicas sistémicas, entre outras causas. A aterosclerose pode afectar os vasos de todo o organismo mas os que são mais notados, pelas suas consequências, são os do coração e os do cérebro. No coração, a aterosclerose pode provocar a angina de peito (dor no peito que surge com o esforço, que alivia com o repouso e que dura poucos minutos), ou os chamados síndromes coronários agudos, quando a aterosclerose se complica com a formação de trombos (coágulos), que podem levar nas suas formas mais graves ao enfarte agudo do miocárdio ou à morte súbita. No caso do enfarte, a dor no peito é habitualmente mais intensa, pode surgir em repouso, tem uma duração superior a 20 minutos e não desaparece espontaneamente. Pode estar associada à falta de ar, suores, e à sensação de vómitos e tonturas.

Mas porque é que surge a aterosclerose no homem?

Desde há mais de um século que se sabe que animais, que habitualmente não apresentam aterosclerose, desenvolvem lesões ateroscleróticas quando alimentados com uma dieta rica em colesterol. Porque motivo o homem haveria de ter um comportamento diferente destes animais? Hoje em dia sabe-se que a variabilidade dos valores do colesterol no sangue em humanos se deve a um conjunto de múltiplos genes em interacção com factores ambientais.

De facto, a aterosclerose em outros mamíferos, que não os humanos, é rara. Mesmo dentro da espécie humana, as populações que mantêm um estilo de vida e uma dieta semelhante aos tempos primitivos apresentam uma aterosclerose mínima.

Durante a gravidez o feto humano, bem como os fetos de outros mamíferos, apresentam valores de colesterol total (CT) abaixo dos 50 mg/dL. Durante o período de amamentação, os valores aproximam-se dos 170 mg/dL nos humanos, e dos 150 mg/dL nos restantes mamíferos. Após este período de amamentação no humano, se a dieta for rica em colesterol os valores sanguíneos sobem para valores superiores a 200 mg/dL, mas se a dieta for pobre em gordura poderá permanecer abaixo dos 150 mg/dL.

Na população ocidental o colesterol total (CT) apresenta uma média de 200 mg/dL. No entanto, estes valores não se podem considerar como normais, uma vez que cerca de 50% destas pessoas apresentam aterosclerose aos 50 anos de idade. Foi igualmente demonstrado que valores de colesterol “mau“ (LDL) entre 90-130 mg/dL, podem associar-se a aterosclerose.

É pois compreensível que a aterosclerose seja endémica na nossa população com cultura ocidental principalmente porque os valores de colesterol “mau” (LDL) que actualmente é considerado “normal” na nossa população são cerca do dobro dos valores que nós geneticamente estamos preparados para ter. De facto, tem sido discutido na literatura científica que os humanos foram geneticamente programados para possuírem de uma forma geral valores de colesterol “mau” (LDL) entre 30 e 70 mg/dL.

Actualmente as recomendações da Sociedade Europeia de Cardiologia sugerem que pessoas com alto risco de desenvolvimento de doença coronária aterosclerótica, deverão ter um valor de colesterol “mau” (LDL) <100 mg/dL. No entanto, em caso de doentes de muito alto risco (como por exemplo doentes com doença coronária, cerebral ou periférica) as mesmas recomendações dizem que os valores de colesterol “mau” (LDL) deverão ser <70 mg/dL (ou na incapacidade de se atingir esse objectivo deverá o valor basal de colesterol ser reduzido em 50%).

O ambiente á volta dos humanos mudou radicalmente nos últimos milhares de anos, assim como mudou a nossa nutrição, a nossa cultura e a actividade física nas sociedades modernas. Durante os últimos milhões de anos os nossos antepassados humanos evoluíram de uma dieta basicamente vegetariana para uma dieta rica em carne. De facto, as tribos que actualmente vivem ainda de acordo com a cultura da civilização primitiva apresentam valores de colesterol “mau” (LDL) inferiores a 70 mg/dL, curiosamente valores em tudo semelhantes aos que são defendidos como objectivo pelas recomendações da Sociedade Europeia de Cardiologia para doentes de risco muito elevado.

Numerosos estudos clínicos demonstraram que a redução do colesterol se associa a uma redução da mortalidade cardiovascular. Análises matemáticas de vários destes estudos em conjunto (meta-análises) sugerem não só que será possível atrasar o desenvolvimento da aterosclerose, mas inclusivamente que será possível parar ou mesmo reverter o seu desenvolvimento. Os valores calculados para parar o desenvolvimento da aterosclerose situam-se abaixo dos 57-67 mg/dL de colesterol “mau” (LDL). Recentemente um estudo clínico de grande dimensão demonstrou em doentes coronários que um colesterol “mau” (LDL) de 53 mg/dL, ainda se associa a uma redução de complicações cardiovasculares.

Como se pode então reduzir os níveis de colesterol e através dessa redução diminuir as complicações cardiovasculares ateroscleróticas no homem, a um nível mínimo? Em primeiro lugar, é claro que o primeiro passo é uma dieta pobre em colesterol. No entanto, uma das principais limitações desta estratégia é a baixa adesão a esta intervenção por parte da população. Para além disso, existem outros factores de risco que também promovem o desenvolvimento de aterosclerose (diabetes, tabagismo, hipertensão) e que precisam de ser controlados em simultâneo, sob pena de não se conseguir reduzir a aterosclerose.

Nos casos em que uma alimentação saudável e o exercício físico regular não conseguirem atingir os valores-alvo, deverá iniciar-se a terapêutica com medicamentos (estatinas) nas dosagens adequadas à situação clínica do doente, recorrendo à associação com outros fármacos que reduzem a absorção do colesterol sempre que necessário para se atingirem os referidos valores-alvo.

Mas não será perigoso baixar assim tanto o colesterol?

O colesterol é, de facto, uma molécula estrutural indispensável não apenas para o desenvolvimento normal do cérebro, mas também para a manutenção da estrutura celular normal. Desta forma, um nível mínimo de colesterol é necessário para manter a vida. Existirá concerteza um valor de colesterol que será demasiado baixo para uma vida saudável. Esse valor, no entanto, ainda não é conhecido. Sabe-se, por outro lado, que doentes portadores de uma anomalia genética (hipobetalipoproteinemia heterozigótica) que se associa a valores de colesterol “mau” (LDL) de cerca de 30 mg/dL, têm uma vida excepcionalmente longa, aparentemente sem complicações.

Em conclusão, em termos cardiovasculares, os valores de colesterol “mau” (LDL) entre os 30-70 mg/dL poderão ser os ideais para os humanos. A questão é como se pode atingir tais objectivos na sociedade actual em que vivemos? A resposta é: alimentação baixa em colesterol, exercício físico regular diário, controle de outros factores de risco (hipertensão, diabetes, tabagismo, obesidade) e terapêutica médica, caso seja necessária para atingir os alvos pretendidos. Mas depois de se atingir o objectivo, é muito importante manter os valores de colesterol sempre controlados através da manutenção das medidas que foram tomadas previamente.

Podemos pois dizer que estamos actualmente a tomar consciência de que deveríamos todos nós de facto regressar às nossas origens e apresentar valores de colesterol semelhantes aos nossos antepassados primitivos!

Definições:

Colesterol Total: CT- soma das várias fracções de colesterol (LDL+HDL+ outras fracções).

Colesterol “mau”: LDL

Colesterol “bom”: HDL

 

Explicações genéricas do efeito:

O colesterol LDL é “mau” porque leva ao depósito do colesterol nas artérias.

O colesterol HDL é “bom” porque retira o colesterol das artérias.

 

Noções práticas:

Quanto mais baixo for o colesterol total (CT) e o colesterol “mau” (LDL) melhor.

Quanto mais alto for o colesterol “bom” (HDL) melhor.